Por Ney Hermann*
Poucas cidades conseguem transformar sua própria identidade em uma linguagem visual capaz de despertar pertencimento, orgulho e engajamento coletivo. Quando isso acontece, a marca deixa de ser apenas um desenho para assumir um papel estratégico no desenvolvimento urbano, econômico e cultural. É justamente essa proposta que norteia a identidade visual do projeto Viva o Centro de Ponta Grossa, apresentada pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico da cidade, o CDEPG.
Muito além de um logotipo, a nova identidade nasce a partir de um conceito amplamente utilizado em projetos internacionais de place branding, disciplina que reúne design, comunicação, arquitetura, urbanismo e marketing para construir marcas capazes de representar cidades, regiões e comunidades.
Ao contrário do que acontece em projetos convencionais de identidade visual, em que símbolos são criados de forma abstrata, o place branding parte de uma premissa simples: a própria cidade fornece os elementos que irão contar sua história.
Foi exatamente esse caminho escolhido pelo designer Rafael Zem e pela publicitária Flávia Barros, sócios da Porto Bureau, uma das empresas mais respeitadas do Paraná no segmento da construção de marcas.
O resultado é uma identidade que praticamente não inventa elementos. Ela reorganiza aquilo que sempre esteve presente no Centro de Ponta Grossa e transforma arquitetura, patrimônio histórico e paisagem urbana em uma assinatura visual única.
Segundo Rafael Zem, essa foi a principal preocupação desde o início do projeto. “Quando fazemos uma marca para uma cidade ou para uma região, percebemos que os melhores cases utilizam elementos próprios daquele lugar. A identidade precisa nascer daquilo que faz parte da memória coletiva da população. Foi exatamente isso que buscamos fazer em Ponta Grossa”, explica o designer.
Essa metodologia não surgiu por acaso. Antes mesmo de iniciar os primeiros esboços, a equipe da Porto Bureau realizou um amplo estudo sobre algumas das marcas territoriais mais reconhecidas do mundo. A pesquisa, apresentada durante a construção do projeto, reuniu campanhas nacionais e internacionais que se tornaram referência justamente por traduzirem de forma visual aspectos únicos de suas respectivas comunidades.
Entre elas está a premiada marca da Amazônia. Em vez de simplesmente desenhar uma folha, uma árvore ou um rio, os designers utilizaram a própria geografia amazônica para construir sua identidade visual. As curvas naturais dos rios passaram a formar letras e elementos gráficos, criando uma marca impossível de existir em qualquer outro lugar do planeta. A tipografia também foi inspirada na comunicação popular encontrada nas cidades amazônicas, reforçando a autenticidade do projeto.
O estudo também analisou projetos de grande repercussão dentro e fora do Brasil. No Carnaval do Rio de Janeiro, por exemplo, a identidade visual foi construída a partir do movimento da porta-bandeira durante os desfiles. As linhas curvas, os gestos ritmados e a fluidez da dança inspiraram tanto o sistema visual quanto a tipografia utilizada pela marca, demonstrando como manifestações culturais podem ser traduzidas em linguagem gráfica sem perder autenticidade.
As Olimpíadas e Paralimpíadas Rio 2016 seguiram caminho semelhante. A marca tridimensional foi concebida como uma verdadeira escultura capaz de representar o espírito da cidade, transformando movimento, encontro entre povos e emoção em uma linguagem visual reconhecida internacionalmente.
Outro exemplo estudado foi a identidade da cidade do Porto, em Portugal. Ali, os tradicionais azulejos portugueses deixaram de ser apenas patrimônio arquitetônico para se transformar em um sistema gráfico completo, formado por dezenas de ícones capazes de representar diferentes aspectos daquela comunidade. Mais do que um logotipo, criou-se uma linguagem visual inteira baseada em um dos símbolos mais reconhecidos da cultura portuguesa.
Esses exemplos serviram como ponto de partida para uma pergunta que passou a orientar todo o desenvolvimento do projeto Viva o Centro. Se grandes cidades do mundo utilizam sua própria história para construir suas marcas, por que Ponta Grossa faria diferente?
A resposta exigiu abandonar computadores e salas de reunião para percorrer as ruas do Centro com um olhar completamente diferente.
Por aproximadamente um mês, Rafael Zem e Flávia Barros realizaram sucessivas visitas ao Centro Histórico observando detalhes que normalmente passam despercebidos no cotidiano. Não era uma caminhada para fotografar monumentos conhecidos, mas uma verdadeira pesquisa visual destinada a descobrir pequenos elementos capazes de sintetizar a personalidade da região central da cidade.
“O interessante foi revisitar o Centro com um olhar de design. Mesmo estando ali praticamente todos os dias, quando você passa a observar formas, cores e detalhes arquitetônicos, percebe coisas que normalmente passam despercebidas. Foi uma oportunidade de resgatar elementos que já pertenciam ao Centro para traduzi-los nessa identidade”, relata Rafael Zem.
Ao longo dessas visitas, a equipe registrou fachadas históricas, desenhos presentes nas calçadas, detalhes ornamentais dos edifícios preservados e elementos arquitetônicos que fazem parte da memória afetiva dos ponta-grossenses.
Nada foi escolhido por acaso. Cada forma observada passou a integrar um grande repertório visual que, posteriormente, seria reorganizado até formar a identidade definitiva do projeto. O objetivo nunca foi criar um símbolo genérico, mas construir uma marca impossível de ser transferida para outra cidade.
Essa preocupação também dialoga diretamente com os princípios estabelecidos pelo próprio projeto Viva o Centro, que define como atributos da iniciativa uma cidade acolhedora, vibrante, colaborativa, transformadora e orgulhosa de seu patrimônio histórico, tendo como valores a ocupação permanente do Centro, o fortalecimento da comunidade, o pertencimento, a convivência e a renovação do legado ponta-grossense.
É exatamente essa convergência entre estratégia, pesquisa e identidade territorial que diferencia a nova marca.
Ela não pretende apenas identificar uma iniciativa institucional.
Seu propósito é tornar-se um símbolo permanente de um movimento coletivo que busca devolver protagonismo ao coração de Ponta Grossa, conectando moradores, comerciantes, investidores, entidades e visitantes em torno de um mesmo projeto de cidade.
E foi justamente dessa convicção que nasceu uma das identidades visuais mais profundamente conectadas à história urbana de Ponta Grossa.
A etapa seguinte consistiu em transformar toda essa pesquisa em um sistema visual capaz de sintetizar a essência da região central.
Em vez de optar por um símbolo óbvio ou por uma representação literal de um único monumento, Rafael Zem e Flávia Barros buscaram construir uma marca composta por diferentes camadas de significado. O resultado é uma mandala contemporânea que reúne elementos arquitetônicos, históricos e urbanos em uma única composição gráfica, capaz de revelar novos detalhes a cada observação.
A construção parte de formas que existem no próprio Centro. Alguns traços reproduzem desenhos encontrados nas calçadas, outros reinterpretam detalhes ornamentais dos edifícios históricos e há referências claras aos vitrais e à fachada da Catedral Sant’Ana, um dos principais marcos arquitetônicos de Ponta Grossa. O símbolo central representa justamente o coração da cidade, enquanto os demais elementos convergem para ele, numa leitura visual que remete ao fluxo diário de pessoas, atividades e oportunidades que fazem do Centro o principal ponto de encontro dos ponta-grossenses.
Segundo Rafael Zem, a equipe percebeu que as calçadas da região central, embora não apresentem um padrão único, repetem formas circulares e desenhos geométricos que acabaram servindo como base para a composição da marca. A Catedral também forneceu elementos importantes, especialmente os pequenos losangos presentes nos vitrais e determinados arabescos da fachada, reinterpretados graficamente na identidade visual. Aos poucos, essas referências passaram a dialogar entre si, formando uma composição única, impossível de ser reproduzida em qualquer outro lugar.
Há ainda outra leitura simbólica. A marca transmite a sensação de movimento permanente. Nenhuma figura permanece isolada. Todas fluem em direção ao centro do símbolo, formando uma composição dinâmica que remete ao coração da cidade. A leitura também dialoga com os deslocamentos dos ponta-grossenses, que, ao longo dos 203 anos de história do município, sempre gravitaram em torno do Marco Zero, localizado em frente à Catedral.
Essa percepção também foi intencional, segundo Flávia Barros. “Ponta Grossa tem uma característica bem interessante quando analisamos a mobilidade da população. Muitas pessoas cruzam o Centro para ir de um bairro a outro. Quem observar a marca que criamos vai perceber que os elementos parecem convergir em direção ao núcleo da mandala, reproduzindo exatamente esse comportamento urbano”, explica a sócia da Porto Bureau.
Outro aspecto que chama atenção é o uso das cores. Enquanto muitas identidades institucionais procuram restringir sua comunicação a poucas tonalidades, o projeto Viva o Centro adota uma paleta ampla e vibrante. Não se trata de uma decisão estética, mas conceitual.


A diversidade cromática procura representar a pluralidade de pessoas que convivem diariamente na região central: comerciantes, empreendedores, investidores, trabalhadores, moradores, estudantes, visitantes e consumidores. Em outras palavras, a marca procura comunicar que o Centro pertence a todos.
Essa escolha também reforça um dos pilares definidos pelo projeto durante sua fase estratégica: construir uma imagem acolhedora, vibrante, colaborativa e acessível, capaz de estimular o sentimento de pertencimento e incentivar uma ocupação permanente dos espaços públicos.
Até mesmo a escolha do fundo foge do convencional.
Em vez do branco puro normalmente utilizado em identidades corporativas, a Porto Bureau optou por um tom levemente aquecido, próximo ao off-white. A decisão busca remeter às texturas urbanas das calçadas e edificações históricas, conferindo maior autenticidade à linguagem visual e evitando uma estética excessivamente asséptica, distante da realidade do Centro.
O cuidado dedicado a cada detalhe ajuda a explicar o tempo investido no projeto.
Durante aproximadamente quatro semanas, a equipe da Porto Bureau alternou reuniões estratégicas, pesquisas de referências internacionais, visitas técnicas ao Centro e inúmeras etapas de desenvolvimento até chegar ao resultado final. Mais do que apresentar soluções prontas, o processo foi construído em diálogo permanente com os idealizadores dessa ação coletiva, permitindo que diferentes perspectivas contribuíssem para consolidar um símbolo que refletisse as dinâmicas do município.
“O resultado jamais seria o mesmo se não houvesse várias pessoas pensando juntas. Foi um trabalho colaborativo para encontrar uma identidade que realmente representasse Ponta Grossa”, resume Rafael Zem.
Esse espírito colaborativo extrapolou o próprio processo criativo.
Toda a concepção da identidade visual foi realizada pela Porto Bureau de forma integralmente pro bono, sem qualquer remuneração financeira. A iniciativa nasceu da convicção de que fortalecer o Centro significa investir no futuro da própria cidade.
Ao confirmar a doação, Flávia Barros explica que a empresa enxergou no projeto uma oportunidade concreta de contribuir com uma transformação urbana que beneficia toda a comunidade. “Nós amamos Ponta Grossa. É a nossa casa. Fizemos esse trabalho pro bono porque acreditamos nesse projeto e entendemos que ele pode alcançar muitas pessoas, gerando resultados importantes para a cidade”, afirma a publicitária.
Para o Coordenador da Câmara Técnica de Mobilidade e Urbanismo do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Ponta Grossa, Carlos Ribas Tavarnaro, que também é presidente do SECOVI Paraná, a decisão da Porto Bureau representa um exemplo de responsabilidade com o município. “A empresa entregou ao Conselho de Desenvolvimento Econômico um trabalho de altíssimo valor agregado de forma totalmente voluntária. É um gesto que demonstra confiança no futuro de Ponta Grossa e na capacidade que o projeto Viva o Centro tem de impulsionar o desenvolvimento econômico, social e cultural do município. Em nome do Conselho, registramos nosso profundo agradecimento ao Rafael Zem, à Flávia Barros e a toda a equipe da Porto Bureau por acreditarem nesta iniciativa e colocarem seu talento a serviço da cidade.”
A presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Ponta Grossa, Priscila Garbelini Jaronski, também elogiou o trabalho desenvolvido pela Porto Bureau. “A identidade visual proposta consegue representar a alma da cidade. É uma marca que convida as pessoas a redescobrirem o Centro, reconhecendo nele um espaço de convivência, cultura, comércio e desenvolvimento para todo o município. Inspirada em elementos arquitetônicos, nos mosaicos das calçadas, nos símbolos históricos e nas formas que fazem parte da memória afetiva dos ponta-grossenses, o emblema desperta um sentimento imediato de pertencimento! É uma linguagem visual moderna, mas profundamente conectada à história e à cultura local, capaz de aproximar a população do propósito do projeto, fortalecendo o orgulho pelo nosso centro histórico.”
Mais do que identificar uma iniciativa da sociedade, a nova marca nasce com a ambição de acompanhar um processo de transformação urbana que deverá se desenvolver ao longo dos próximos anos.
Nas grandes experiências internacionais de place branding, as identidades visuais deixam de ser peças publicitárias para se transformarem em ativos permanentes das cidades. Elas passam a orientar campanhas, sinalização urbana, eventos, produtos, materiais institucionais, ações culturais e iniciativas voltadas ao turismo, criando uma linguagem comum capaz de fortalecer a reputação de um território.
É justamente esse horizonte que orienta o Viva o Centro.
Ao traduzir em linguagem gráfica a arquitetura, a memória, os espaços públicos e a diversidade humana que caracterizam o coração de Ponta Grossa, a Porto Bureau entrega mais do que um símbolo. Entrega uma identidade construída a partir da própria cidade.
Uma marca que não foi importada de tendências passageiras nem concebida para atender modismos do design contemporâneo. Ao contrário, nasce da observação cuidadosa das ruas, dos edifícios, das calçadas, da Catedral e, principalmente, das pessoas que fazem do Centro um espaço de convivência, trabalho, cultura, comércio e memória.
Se revitalizar um centro urbano significa devolver vida aos seus espaços, construir uma identidade capaz de representar essa transformação talvez seja o primeiro passo para fazer com que toda uma comunidade passe a enxergar novamente, com orgulho, o coração da sua cidade. 













*Sobre o autor: Ney Hermann é jornalista, formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, com pós-graduação pela Universidade Federal do Paraná. Tem 40 anos de experiência, tendo atuado em empresas como TVE, RIC TV e RPC. Atualmente trabalha na Rádio CBN, de Ponta Grossa. Ele também é corretor de imóveis, conhecendo bem o setor de urbanismo. Ney Hermann atua ainda como assessor de imprensa e as informações desse texto são oriundas de pesquisas e entrevistas feitas com os responsáveis pelo projeto Viva o Centro de Ponta Grossa e a equipe da Porto Bureau.
Carlos Tavarnaro.
Diretor Tavarnaro Consultoria Imobiliária
O trabalho de branding ficou irretocável, motivou e engajou nossos colaboradores. A leveza da comunicação foi aprovada pelos clientes antigos e os novos passaram a se identificar mais com o nosso posicionamento.
Luciano Döll.
CEO InbixVentures
A metodologia ofertada para criar a identidade da marca com todas as suas perspectivas permitiu que, além da marca, nós mesmos nos identificássemos como negócio. Sabíamos que não havia chance de erro e que se houvessem ajustes seriam de sintonia fina.
Miguel Sanches Neto.
Reitor UEPG
O fundamental para o projeto de branding era unificar as duas marcas que a instituição utilizava e comunicar um modelo mais moderno de administrar. O processo de desenvolvimento foi longo e precisou de amadurecimento, porém a adesão instantânea à ela mostrou que ele foi muito exitoso.